Imagina que a única forma de sobreviveres neste mundo passava por teres uma grande ideia.

Agora, imagina que essa grande ideia (ou aquilo que, antes de materializada, poderia ser a tua grande ideia, a ideia que te salvaria das agruras de uma vida anónima e afogada em dívidas) passaria por criares uma fábrica de produtos que salvariam os outros da morte - da morte física. Comprarias máquinas e contratarias pessoas para manobrarem essas máquinas que teriam, como fim último, a salvação, mesmo que momentânea, da saúde do outro.

Implantarias, pois, um conjunto de produtos e serviços que ajudariam o outro a conservar a sua saúde física e mental, produtos esses que seriam vendidos e serviços que seriam administrados a quem os pudesse pagar.

O teu sucesso, embrenhado no sucesso da tua fábrica bem como na satisfação de quem contigo colaborasse, resultaria, pois, da infelicidade, mesmo que passageira, do outro, que se veria confrontado com a necessidade de se servir de ti, partindo da sua própria necessidade de se salvar da morte.

Assim sendo, da infelicidade do outro resultaria o sucesso da tua fábrica ou, pelo menos, a razão da sua fundação e da ideia que, um dia, tiveste.

Imagina ainda que, um dia, descobririas que os produtos que vendes ou os serviços que implementaste poderiam ser feitos pelos teus clientes, mesmo que de uma outra forma, em casa e seriam tão ou mais eficazes quanto ao seu fim último.

Agora senta-te no tempo presente.
“qualquer que seja o futuro, continuará a haver noites de luar, Serra de Sintra, e o Tejo a correr para o mar”

José Hermano Saraiva 




Imagina-te na estação de metro da Baixa-Chiado isolado do barulho intrínseco do espaço físico, das máquinas, das moedas que caiem do bolso das pessoas, do barulho da roupa ou dos guarda-chuvas que se abrem e fecham quando é preciso.

A tua audição tornou-se selectiva. Ficaste surdo ao ruído das paredes, ao ruído prolongado do eco das escadas rolantes, ao ruído dos comboios que, consecutivamente, atravessam as linhas.

As coisas fecharam as portas.

Do interior da sombra, da sombra que se apoderou de ti, apenas consegues escutar o som da respiração das pessoas. São suspiros, angústias, sopros, palavras para lá das palavras, alguns espirros incomuns, sofreguidões, fôlegos contidos, bocejos.

É o que fica para lá do ruído das paredes, abafado pela estação, pelo eco da estação, pela fugacidade de esperar, de esperar por mais uma espera, de esperar. De esperar.


Cansaço.

                                                                                                                                               

                                            Cansaço.





  
Uma das coisas mais difíceis de pormos em práctica enquanto aqui estamos é vivermos concentrados na procura do equilíbrio entre o que somos e o peso dos outros, sob a forma de como poderão disparar(-se) contra nós.

Seria tudo muito mais fácil se tivéssemos olhos nas costas, mas não temos. É que tudo - ou uma espécie de maior parte de tudo - do que de nós é dito acontece, neste sentido, muito antes de nós.

Em época medieval, a eficiência das conquistas militares era, em boa medida, avaliada pela forma como o inimigo era atingido. O número de vezes que era perfurado pela espada, pelas setas ou pelos estilhaços metálicos das explosões era conjugado com um outro factor muito mais importante: o sítio onde era aberto. O local de atravessamento destes objectos era determinante para calcular a quantidade de sangue perdida pelo inimigo, a paragem de órgãos vitais ou a possibilidade de voltar a sentir o corpo ou os pés ou as mãos e, consequentemente, de se levantar do chão.

Hoje, batalhas como estas são travadas todos os dias, a todas as horas. O inimigo continua a ser invisível porque se mostra, ao último momento, por trás. 
É extraordinariamente preocupante a veleidade posta na aceitação das medidas drásticas e profundamente desumanas com que somos diariamente agraciados. Mais preocupante ainda é a forma como certas medidas são tomadas: mesmo que produzam efeitos no dia seguinte, são publicadas nas horas imediatamente anteriores numa espécie de jornal secreto, encriptado, indecifrável ao comum dos mortais - o obscuro diário da república.

Se não tomarmos medidas já (se não nos revoltarmos contra algo que não é, de todo, inevitável), tomá-las-emos mais tarde contra nós próprios, contra a nossa família, as pessoas que amamos, e quem, por assim dizer, decidiu tudo por nós ficará impune e, provavelmente, emigrará.

É preciso que queiramos perceber que grande parte dos nossos problemas pessoais derivam de problemas sociais que não foram criados por nós mas, outrossim, por quem achámos que poderia encontrar a solução para esses problemas. Assim não foi, assim continuará a não ser, e os culpados passámos a ser nós próprios - culpados por quem manda, que nos massacra, e culpados por continuarmos a deixar que mandem, e que nos massacrem.

Haverá forma de, de uma vez por todas, acordarmos deste coma induzido?
É impressionante - no verdadeiro sentido da palavra, daquilo que impressiona, que se interioriza, que se incorpora - a forma como, actualmente, nos tratamos, na sociedade que melhor penso conhecer e que é esta, a portuguesa.

Da crise financeira à crise de valores, olhamos para o outro como o nosso inimigo, com uma variante muito nova e especial: o nosso principal inimigo é aquele que encontramos primeiro, do vizinho que se cruza connosco, de manhã, no elevador à última pessoa que encontramos na rua, muito ao longe, quando, de noite, vamos à janela despedir-nos do último cigarro.

A nossa estratégia de sobrevivência - uma experiência recente, que contraria a nossa racionalidade social e individualidade - obriga-nos a fitar o nosso semelhante esperando, fria e firmemente, que morra. A morte que queremos no outro é o preenchimento - irracional - da nossa existência: uma vaga de um emprego que se perdeu, uma possibilidade remota de um lugar a mais no autocarro, uma vaga possível na creche do filho do morto ou da morta (entretanto órfão e entregue à segurança social), uma vaga impossível na fila de trânsito, uma hipotética vaga na praia, com mais um lugar para estender a toalha e espaço suficiente para abrir os braços e mergulhar. Uma vaga aqui, ali, acolá. A vaga que temos na alma é parcialmente ocupada pela ocupação de uma vaga em qualquer coisa que esteja, efectivamente, ocupada. E para que hajam vagas, esperamos que os outros morram, porque, mais que nunca, o inferno são mesmo e só mesmo os outros.

Falava, há dias, com um amigo sobre estas coisas. Dizia-me o Gonçalo, com uma bola de guardanapo entre os dedos e um sorriso amargurado, que há vários fogos acesos em vários cafés como aquele onde estávamos mas ninguém que os ateie. É que, em Portugal, as pessoas são muito optimistas, acreditam que a sua salvação pessoal é feita à custa da desgraça alheia e, por isso, toda a sua dedicação e entrega à vida são canalizadas para a provocação do mal no outro. A desvida dos outros é aquilo que nos faz achar que continuaremos vivos.

O que seria, por exemplo, das minhas contas se não houvesse ninguém que as cobrasse? O que seria do desemprego se houvesse apenas um cargo a ocupar, e esse cargo fosse ocupado por mim? A felicidade mora no desaparecimento do outro, no desaparecimento físico e real do outro, ou aos olhos de um santo, na sua emigração.

Hoje, já não escolhemos as nossas vítimas. As nossas vítimas são quem se apresenta aos nossos olhos, são as primeiras pessoas que se desvelam ao nosso olhar. Uma águia, quando sobrevoa um campo, não escolhe a sua presa, especialmente se estiver com fome - a sua presa é a primeira presa que aparecer à sua visão de rapina.

Assim somos. Sem futuro social.
Da escrita possível, não há forma de descrever a perda de alguém. Que te morra, que te desapareça ou que deixe de querer saber de ti: não conseguirás descrever o que perdes por quem tu perdes, mesmo que quem percas seja já um pouco de ti, um pedaço do teu corpo que, uma vez solto, te causou uma folga, um espaço, um vazio. Uma dobra. Uma forma de ar.

É uma dor física, orgânica, sensorial. Uma falha mecânica da pele.

Não é uma dor que se diga, que se escreva, sequer que se fale, que se abocanhe. Está na palma das tuas mãos, e tocar-lhe é fazer a dor doer da dor que é.

Antigamente, fazia-se a purga quando estavas doente. Imagino que as dores que sentias quando eras purgado te fizessem esquecer outras dores maiores. Primeiro, está o corpo, porque, antes de te doer o que for, dói o corpo. A alma, dentro do corpo, espicaça-o, e, crescendo com a dor que sente, tenta libertar-se do sítio que a prende, mas de que depende para doer. Empurra-te. É em ti de dentro para fora. A tua dor quer continuar em ti mas finge que quer sair, empurrando-te para fora. Precisas de voltar a ti, mas a recordação de quem eras antes de que te doesse o corpo cola o teu corpo, por dentro, à dor.

A dor é o fim. Ficas na dor, sentas-te nela. Mas o peso do teu corpo sobre a dor gasta-o, rompe-o, queima-o. Não há nada que doa mais que a dor porque a dor não tem um sentido, um caminho. Quando perdes alguém, não te dói para cima, para o lado, para baixo. A tua dor não te visita porque vive contigo. A tua dor não sai porque não sabes por onde entrou. Terá crescido em ti, estado contigo, e acordado. A tua dor é uma forma de existência simétrica, que, atrás de ti, te segue para todo o lado e copia o mais ancestral dos movimentos - a dor imita-te, aprende a crescer e a ser maior que tu seguindo o traço do teu corpo, roçando a sua escama pelos contornos mais íntimos, secretos, genitais do teu corpo.

Dor que te conhece, que não te pede, que tem a tua chave.

Dói-te a dor porque faz de ti uma continuação de si própria, crescendo na aridez, na penúria, no lamento dos teus passos, na vida que perdeste quando perdeste quem deixaste de ter em ti, contigo, quem eras, simultaneamente, tu e tu.


Quem comigo tem uma relação pessoal (mais ou menos forte, conforme o caso, o acaso e a distância física e temporal dos reencontros) sabe que falo pouco de duas coisas: de mim e de política.
 
Evito falar de mim porque quero ser moderno. Faço-o por conveniência. Faço-o porque quero estar de acordo com as horas e incutir nos outros a ideia de que também eu não alinho em egoísmos e em valorizações excêntricas do "eu", em detrimento do "nós". Que sou como os anos europeus.

Mesmo assim, como se se tratasse de uma descoberta quinhentista, percebo que há, ainda assim, ao segundo que passa, quem prefira falar "deles" e "delas", em vez de falar de si ou de "nós". São, normalmente, pessoas com baixíssima auto-estima, que ainda não atingiram a fase nirvana do pensamento contemporâneo e que ainda não deram as mãos ao próximo (de Sagres a Bragança), que não foram nem escuteiros nem voluntários nem festivaleiros ou que não partilharam o seu corpo e elasticidade ao luar, dentro de uma tenda, fazendo barulhos superiores aos dos mosquitos para que os colegas, na outra tenda, ouçam o seu rugido sexual.

Pessoas coitadas, portanto.

Quanto à política, não me atrevo a fazer comentários, até porque a melhor maneira de fazer política é não fazendo comentários a nada. A maioria dos políticos, dos bons políticos (senão mesmo de todos os bons políticos) sabe disto. Deixa-se estar e, de contas em contas, a razão do seu silêncio é directamente proporcional à força da sua carteira.

Há outra razão pela qual não falo sobre política, que é o mesmo que dizer que não comento a vida e obra dos políticos: escrevo tudo. Escrever é uma forma de contar até três sem nos enganarmos e eu gosto de escrever, sobretudo sobre política. A palavra escrita é muito mais importante que dizer coisas sobre política usando a língua, que, afinal, pode servir para outras tantas coisas muito mais primaveris. Tudo se torna banal em menos de cinco minutos, eu consigo adormecer e fazer adormecer as pessoas quando digo de um político isto ou aquilo, até porque não sei separar a distância entre a obra política do político e a vontade do político (isto é, entre a vontade do povo e a inalienável vontade do povo vertida na magna capacidade do político, ser dotado de inteligência e vontade superiores).

Falar sobre política, hoje, é acabar de vez com uma conversa que poderia ser interessante mas que terminará empoeirada, azedada, dorida, como ficam as nossas costas quando vamos para a praia pela primeira vez no ano. Ninguém gosta. É estar sempre contra alguém, é uma espécie de afastamento deliberado da razão e do bem comum. São gajos do contra, a receber o subsídio de desemprego acumulado com o subsídio de reinserção social. Note-se que um golo de um jogador de futebol júnior é mais importante que os milhões de euros retirados ao povo por um político que, por entender estar a fazer o bem comum, calcetou moedas à entrada do loft pensado pela maria desde pequenina e embutiu moedas nas paredes da sua piscina, na casa de férias no Algarve.

É melhor, menos mau, menos pecaminoso e, acima de tudo, mais contemporâneo, moderno e muito mais interessante falar mal da vizinha que do político.

É ser-se um democrata, é ser-se um cidadão no pleno gozo dos seus DLG's: Direitos (dos poucos que ainda tem), Liberdades (de ir ao café, por exemplo) e Garantias (bancárias).

É giro. É diferente.
O lado mais interessante do tempo a que estamos entregues é que - não só por antecipação lógica mas por uma forma de pressentimento que vem connosco do início do mundo - sabemos que haverá outro tempo radicalmente oposto àquele a que fomos atirados.

Apesar de tudo, a nossa essência não está entregue ao desbarato dos ventos e dos eventos políticos e das vicissitudes económicas dos países e das nossas casas. Sabemos, enfim, que há-de chegar um tempo em que tudo aquilo que é, hoje e agora, dado como fundamental passará a ser acessório. E isto é sabido porque terá que ser assim, é sabido porque é assim, porque assim somos nós, que sempre estivemos dentro desta caixa.

Vejam-se os telejornais: daqui a um ano, daqui a um efémero ano, as notícias que ouviremos, se ainda as quisermos ouvir, serão uma repetição mais ou menos velada das notícias que hoje constarão da agenda das televisões, das rádios ou da internet. Daqui a uma semana, a repetição da notícia será ainda mais evidente, se a memória - essa vadia - nos não for curta.

Apetece-te ver um filme repetido? Apetece-te, se sentires que o já viste há muito tempo, se souberes que vale a pena e se pressentires que conseguirás subtrair ao seu sentido outros que não haverás descortinado, por haver pipocas, por as cadeiras não serem confortáveis, por teres conseguido entrar na sala antes das luzes se apagarem, por teres ficado demasiado próximo do écran e a tua visão se ter resumido aos pormenores.

No futuro, a economia, a política e outras formas de entretenimento social serão apenas o que são: formas de olhar o mundo. Mas o mundo só é visto e compreendido por visões sobrepostas a outras, a outras que virão, que não sabemos, ainda, quais são, mas que virão.

Só temos que esperar pelo futuro, sabendo, com tristeza e resignação, que estamos presos no tempo presente. Será por isso, talvez, que te preocupas tanto com o tempo que fará amanhã, mesmo sabendo que o calor continuará.
Há dias assim, especialmente quando começam a ficar mais quentes. É um momento, repetido quase à exaustão, multiplicado pela sua unidade e, por isso, redutível a si mesmo, em que as palavras dos outros, os seus gestos e a repetição dos movimentos que executam inconscientemente parecem uma espécie de ovo. Mas é um ovo especial, um não-ovo: vazio, oco, quase a antítese de si próprio enquanto elemento portador de qualquer que, à partida, o encheria e, por isso, o tornaria ovado.

Mas não há lá nada. Ou há, mas não vejo, e isto, repito, acontece sobretudo na altura em que os dias começam a ficar quentes.
A tão proclamada crise em que estamos, por assim dizer, depostos está a evidenciar aquilo que de pior poderemos ser. Não é verdade que estamos mais próximos de sermos solidários; é verdade, sim, que estamos mais próximos de vermos o que é ser solidário para quem, a certa altura da sua via, optou por o ser. É como se assistíssemos ao desfile dos solidários, à beira de uma fita amarela de segurança que nos impede, por medo, de entramos nesse desfile, sob pena de passarmos ou a figurantes no palco de quem já tinha feito a sua opção ou à razão de ser do próprio desfile. Estamos próximos, mas não estamos lá. Não somos de lá porque nunca termos pensado no lado de lá, com o lado de lá.

No fundo, e como sempre soubemos, a falta de dinheiro promove a mesquinhez e, acima de tudo, a falta de tolerância para com o outro, aspectos que já habitavam em nós desde que somos da mesma espécie mas que, aos poucos, acorda, quando damos à chave do carro, no que vamos sendo.

A política, enquanto for um mero exercício técnico contabilístico, deixa, por um lado, de ser um instrumento da vontade de todos e, por outro, levanta socialmente a pior questão que poderia ser posta relativamente à sua essência: o seu fim.
Sempre me pareceu certa a ideia de que o que conhecemos do mundo é uma espécie de reconhecimento. É como se retomássemos as rédeas de algo que esteve às voltas entre nós próprios (um insecto) e que, de repente, parou, flutuando, diante de nós. Desconfio que conhecemos, igualmente, tudo o que há a saber sobre nós, embora tudo que flutua, a esse respeito, à nossa frente provoque um desvio do olhar.

Não sei, no entanto, se tal desvio do olhar é propositado ou se respeita ao conjunto de condições ligadas à inevitabilidade do pensar, que é como dizer à impossibilidade de fugirmos de nós mesmos enquanto aquilo que, no essencial, somos.


São coisas que nunca entenderei, mas que, se assim não fossem, trariam, quase de certeza, mais verdade ao mundo político onde fomos depostos: Não é possível nem aceitável nem sequer honesto que pessoas que discutem - porque se tratam. efectivamente, de discussões - as políticas de um país, se sentem, à hora do almoço, para amenas conversas em torno de questões importantíssimas como o futebol, ou a actuação desta ou daquela pessoa que conhecem pessoalmente nos programas de televisão de domingo à noite.

Não defendo que, à boa maneira asiática, voem cadeiras nos parlamentos ou saiam ganchos de direita ou de esquerda dirigidos à gravata ou aos óculos de quem lá está. Mas acho, de algum modo, ainda mais ofensivo que se cumprimentem ao almoço ou ao jantar depois se terem acusado mutuamente de violar os direitos do povo ou, em alturas mais quentes, se terem chifrado ou ofendido pessoalmente em surdina.

Sempre pensei que os direitos do povo são melhor defendidos ao jantar, depois de uma boa regadela de branco ou de tinto e de um trago final, pós café, de uma qualquer bebida espirituosa. E não devo estar muito longe da verdade, mas não posso evitar, ao mesmo tempo, que estas coisas me tragam à memória uma espécie de imagem de máfia a que os filmes americanos me terão habituado.

Assim sendo, as discussões de parlamento poderão não mais ser que encenações, ou, no caso português, uma espécie de fados à desgarrada por fadistas sem voz, mas que deveriam, afinal, em vez de cantar, ser a voz do povo.

Todos os dias, a quem ainda se dá ao trabalho de tentar perceber as notícias das 8, se assiste a um mau teatro consentido. Pagamos, de várias maneira, para o ver, e, como se não bastasse, suportamos o aluguer do palco.
Há uma separação não assumida - mas evidente - entre ciências ditas sociais e humanas e ciências ditas técnicas. Mas quando saímos à rua ou abrimos o vidro do carro esquecendo, por momentos, o caminho, vemos que o caminho é feito de ligações entre a matemática e as letras, entre a física e a metafísica, entre o que a nossa vista alcança e o que, não alcançando, se pressente.

A explicação para as coisas que vemos é, se quisermos, o resultado de uma combinação infinita de coisas que não vemos.

A memória dos materiais: se segurares um elástico entre os dedos e o fizeres vibrar, repararás que, passados segundos, volta fisicamente ao ponto de partida. Do ponto de vista da Física, no entanto, o elástico voltou não exactamente ao local de onde foi, porque factores como a pressão exercida, o tipo de contacto ou coisas tão normais como a temperatura ambiente em que a vibração ocorreu determinaram variações no regresso.

 Humanamente, é mais ou menos isto. Resiliente, mais ou menos resiliente, conforme o que foste. Magoam-te, fazem-te vibrar. Mas nunca mais serás o mesmo porque o material de que és feito (e que não consta da Tabela Periódica) é estranhamente mole, estranhamente cruzado entre si, estranhamente entrelaçado. És rede. Deixas passar coisas, ar quente, o frio e a chuva, olhares, pequenas mortes, as palavras dos outros e a memória do que foste.

És pouco mais que a matéria. És pouco menos que matéria.
Os feriados, alturas em que não é necessário comparecer no local de trabalho (caso se verifique a improbabilidade de existir), são momentos estranhos. Do ponto de vista sociológico, são instantes interessantes: cumpre-se o feriado, independentemente do motivo para o qual foi instituído, mas o cumprimento do estatuto desse dia é tomado como uma espécie de vingança para com a rotina. Ou para connosco mesmos, animais de hábitos, ou para com quem nos dá trabalho, que é, no fundo, quem ordena as pequenas alterações diárias ao nosso quotidiano.

De um modo geral, se temos chefes, não gostamos deles porque nos alteram as rotinas. E é, talvez por isso, que gostamos mais dos feriados que dos nossos patrões ou patroas - porque um chefe, acima de tudo e sem necessidade de dar muitas explicações, altera o quotidiano de quem trabalha. Não nos deixa trabalhar, porque atrapalha o que vimos fazendo com sequência, lógica, temporalidade linear. Não precisa de argumentar: manda. Já os feriados, alterando ligeiramente os nossos hábitos (perpetuados, pouco tempo depois, pelos fins de semana), não mandam em nós porque são momentos de desobediência consentida. Despenalizam, desobrigam, embora provoquem em nós uma espécie de insolvência imaterial. São como os domingos, que são a primeira (e, provavelmente, a mais importante) forma de inquietação semanal.

Aliás, as polémicas acerca do fim de alguns feriados têm sido, acima de tudo, discussões dentro de nós próprios sobre a estranha evidência de gostarmos de dias relativamente aos quais não sabemos o que fazer mas que nos vão, por assim dizer, tirar.  

Mas tudo isto é mentira. Tudo isto é profundamente censurável. Tudo isto é desumano para quem trabalha num call-center e, se não for trabalhar no feriado, tem que ir para a cama com o supervisor, para a recepcionista que tem de usar o decote perto do umbigo, para quem trabalha nas feiras, nos cafés, para quem tem de desapertar mais uma botão da camisa para vender telemóveis, para quem é promotor de iogurtes ou de perfumes ou arruma congelados numa superfície comercial gelada, por cima de uma luz branca, de pé o dia inteiro. Tudo isto é socialmente profano e de uma profunda desonestidade intelectual para quem, vivendo ao mesmo tempo que todos nós (o tempo legal, o tempo físico, o tempo psicológico), tem que trabalhar aos feriados.

25 de Abril? Sempre. Quase sempre. Quase nunca.
Ultimamente, vai sendo fácil perceber que algumas pessoas foram perdendo importância numa altura em que, na verdade, pensavam ganhá-la. São pessoas que agregaram a sua marca de singularidade a uma espécie de patente registada – a patente das minorias. E, obviamente, perderam-na.

Na verdade, não estou, como nunca estive, verdadeiramente preocupado com o facto de ser socialmente identificado como sendo parte de uma minoria. As minorias dão, até por uma questão de regras da Física, quase automaticamente origem às ditas maiorias. É um ciclo: minorias que se transformam em maiorias e maiorias que, por terem sido minorias, regressam às suas próprias origens de minoria abandonada.

Mas hoje, ser da minoria é o mesmo que ser da reacção, mesmo que o termo já pouco ou nada signifique (pelo menos da maneira que se julgava significar há uns anos). Eu acho que quem o diz tem razão. Ser da minoria significa estar sempre alerta, sempre à procura de quem anda a pensar em nos tramar. Ser da minoria é como ser uma espécie de bastião da liberdade das pessoas das minorias, é lutar, mesmo que não se saia do sofá, contra tudo e todos, contra todos aqueles que com tudo pretendem, tecnicamente falando, foder-nos.
Eu prefiro agir em vez de reagir. Se um dia entenderem que devem pôr-me, e vamos a exemplos, uma matrícula cor-de-rosa choque na traseira do Fiat, estejam à vontade. É tudo vosso, desde que eu perceba que os outros, os prejudicados, ainda preferem reagir em vez de, uma vez na vida que seja, fazer as coisas ao contrário.
Um pássaro morto repousa aos pés de Calvin e Hobbes.

Calvin: Olha, um pássaro morto!

Hobbes: Deve ter batido contra uma janela.

Calvin: Não é maravilhoso? Tão delicado... Antes que seja tarde, aprecias o milagre da vida. Acabas por perceber que a natureza é implacável e a nossa existência é muito frágil, temporária e preciosa. Mas seguindo a tua rotina diária nunca consegues pensar realmente nisto... Talvez por isso as pessoas tomem sempre a sua existência como uma coisa garantida e ajam de um modo tão duro e seco. É uma coisa muito confusa. É capaz de tudo isto vir a fazer sentido quando crescermos.

Hobbes: Sem dúvida.

...Calvin e Hobbes descansam as costas na árvore, pousando os olhos nos pássaros que, por cima deles, voam em silêncio.
A haver, tanto em Portugal como no resto do mundo, um movimento de pessoas com deficiência, imagino que seria um movimento desprovido de movimento. Quando eu e mais algumas pessoas fazíamos atletismo em cadeira de rodas e participávamos em provas integradas num circuito que deixou, entretanto, de existir, o que mais espantava as pessoas que connosco corriam e que assistiam às provas não era o facto de, digamos assim, estarmos em esforço ou, eventualmente, à frente de alguém: era algo ainda mais importante que isso. O espanto advinha do facto de estarmos em movimento e de termos, nem que fosse por momentos, quebrado a imagem frágil das pessoas com deficiência, quietas em casa a apodrecer em frente à televisão, com a arrastadeira sempre no pensamento.

Essa imagem ainda faz parte da memória colectiva, mesmo que levemente desvanecida por um conjunto de atletas que, aqui e ali, ganha umas medalhas e brilha enquanto pode. No entanto, é a imagem que, a haver uma imagem verdadeira e falsa das coisas, seria a imagem verdadeira.

Seria fácil, pondo as coisas deste modo, reservar a culpa para quem gosta de, como quem caça perdizes, fazer pontaria às provas de atletismo ou matar o desporto amador. No entanto, o problema, a haver um problema, seria uma coisa muito mais funda, muito mais discreta mas muito mais funda – quando queremos que os braços mexam, mexemos os braços. Quando pensamos muito no assunto mas não queremos mexer os braços, os braços, na verdade, não mexem. E isso é um lado absolutamente terminal da natureza humana: queremos, queremos. Não queremos, não queremos.

Assim, para além de muitas outras coisas que são precisas, querer um movimento de pessoas com deficiência é querer que as pessoas com deficiência ponham em práctica alguns movimentos que, não sendo necessariamente rápidos, poderão ser certeiros.Como se, algum tempo depois da cinematográfica fuga das galinhas pudesse, mesmo que não mediática, surgir do nada uma revolta das perdizes.
Foi no 2A que tudo começou, embora não consiga, na verdade, lembrar-me de grande coisa. São assim, as coisas: a gente acaba por se esquecer do que é, hoje, por nós considerado importante e que, na altura, era apenas uma necessidade dos nossos pais ou de quem, no começo de uma nova vida, nos acompanhava às consultas.

Era puto. Lembro-me, como já disse, de poucas coisas. De algumas coisas lembro-me melhor, talvez por serem aquelas que evocavam as variáveis do medo, o medo que fazia com que desse a mão à minha mãe desde que saíamos do carro até nos sentarmos em frente à médica. Da médica, apenas sei de cor a bata branca, um bolso rasgado e uma caneta que teimava em cair quando se baixava para medir a distância dos meus joelhos ao aparelho de ferro. Fazia eu por esquecer aquilo, olhando para o fundo do decote, como se a bata branca, entreaberta, estivesse ali para mim. Por ser Verão, os seus mamilos cor de romã roçavam no tecido e, por vezes, endureciam. Às vezes, à noite, era uma motivação como outra qualquer.

Foi no 2A que as coisas foram começando. Não consigo lembrar-me dos miúdos, talvez por estar sempre mais triste que eles. Havia um bar, lá em cima, num outro piso (o terceiro ou o quarto, já não sei, com vista para o autódromo...), mas as coisas atrasavam-se sempre muito. No final, a minha mãe pedia um galão e uma torrada e eu só queria petazetas, que eram umas pedrinhas com sabor a morango que se punham debaixo da língua e estalavam na boca. Depois engolia-as e era como um sinal de Deus, o sinal de que a consulta tinha acabado e que apenas restava a tarde, mais fria, no corredor da ortopedia. Desse corredor, os cheiros a borracha quente, a tintas e a próteses entravam, subterrâneos, nos pulsos de quem lá passava - nos meus pulsos e nos pulsos da minha mãe, marcados pela força com que os apertava, quase em sangue do medo. Um dia ainda me sobem esta porcaria, pensava eu, antecipando as consequências de um trágico desfecho da minha paixão pela Cátia, a miúda que, lá de cima do sexto ano, olhava para mim e que, a certa altura, se concentrava apenas e só nos meus olhos.

É do fundo do 2A que as coisas começam, marcadas pelo passo largo de mim e da minha mãe, que fugíamos a medo daquilo tudo quando nos afastávamos do balcão da saída, quando a minha mãe, sempre ela e sempre a medo, pedia um papel para justificar no serviço o peso de mais um daqueles dias de interior.

É do fundo do 2A que este blog, à semelhança de tantos outros blogs, começa. Todos temos um 2A na nossa vida, escondido pela memória ou atrasado pelas coisas boas que nos foram, entretanto, acontecendo e disfarçando as más. Desconfio até que há blogs por causa disto, dos 2A atrás de nós, à nossa frente, ou então por causa do número de vezes que pedíamos à nossa mãe para carregarmos no botão do elevador que subia, um dia de cada vez, ao fundo de nós.